Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
......................................
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
***
Que bonitinho* isso da medicina, do "meu" mundo: os sintomas, o frêmito toraco-vocal,... num poema de Manoel Bandeira que é da terra dos meus colegas pernambucanos!
*Certa vez comentava com Vany (colega de sala), que casos raros ou quando o paciente se queixa de sintomas - bem direitinho - exatamente conforme aquilo que esperaríamos ao fazer uma anamnese em que já sabíamos previamente o diagnóstico - coisa bem caso de livro - não tínhamos como conter uma sensação de “que massa! - interior”. E, ao mesmo tempo, que tínhamos consciência que de “massa” isso não tinha nada, afinal antes o paciente estivesse nos dando a oportunidade de sentir um “que massa!” por saber da recuperação e cura que vem tendo o paciente... então, eis porque destaquei o “que bonitinho” que, conforme disse, sei que não tem nada (ainda que como diria uma música de Engenheiros - nada é uma palavra a espera de tradução) exatamente de bonitinho, mas é entendível o porque de certas exclamações assim “nada a ver”, afinal a medicina é real, a ciência faz sentido, tudo é “bem encaixadinho” como diria Dra. Marta em relação a auto-explicação da endocrinologia via fisiopatologia e a medicina além de tudo ainda consegue ser arte,...!
E que massa que hoje em dia há a quimioterapia e é bem mais raro a ocorrência de tuberculose (agora sim, um que massa apropriado!)
Mas, poderíamos sim aproveitar o tango... ao menos dançar o tango com o paciente agora em comemoração?! Os professores de psicologia médica talvez condenassem... #)
Outra coisa que chama a atenção nesse poema é a sugestão do paciente em “tentar-se o pneumotórax”...poderia-se pensar “como assim, ele queria que o médico fizesse um pneumotórax iatrogênico nele?! Desde quando pneumotórax é tratamento e não problema?!”
Pesquisando a respeito eu li que antes do surgimento da quimioterapia específica, os pacientes tuberculosos eram tratados com repouso e medidas higieno-dietéticas. Com esses objetivos terapêuticos, eram internados em sanatórios construídos em regiões às quais se atribuíam condições climáticas favoráveis para a cura da enfermidade. Em tais sanatórios os doentes também se submetiam a procedimentos cirúrgicos, como o pneumotórax terapêutico preconizado por Forlanini (uma colapsoterapia e esta prática do pneumotórax artificial disseminou-se por todos os países, constituindo-se no tratamento heróico e considerado o primeiro tratamento racional para "os tísicos" até o início da década dos anos 50).
A tuberculose no Brasil teria trazido realmente várias implicações literárias tendo ganhado destaque o romance Floradas da Serra (1939), de Dinah Silveira de Queiroz, cuja trama se passava em São José dos Campos (SP). Diversos poetas brasileiros, afligidos pela tuberculose, dedicaram-lhe versos. Como fizeram, em alguns momentos de suas vidas, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Raymundo Correia, Augusto dos Anjos, Martins Fontes e Manuel Bandeira.
E se tivermos a oportunidade de passar pela Policlínica Geral do Rio de Janeiro talvez tenhamos a oportunidade de ver uma das radiografias dos pulmões de Bandeira!

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